segunda-feira, janeiro 29, 2007

Graça Graúna

MANDINGAS

Negro que te quero negro
na capoeira
ou na morna,
em Cabo Verde
ou Bahia,
em Cuba libre
ou Angola

as contas do teu colar

têm as cores dos meus guias
no horizonte do olhar
na esperança da tribo

negro que te quero negro
Orik,!
Orixá!
Nagô!
Louvada seja a poesia!

Graça Graúna, in:
http://www.blocosonline.com.br/editora_blocos/2006/sacpoevidig/01poetpoes/antologiavirtual/ggrauna01.php

Solano Trindade






(retrato de Solano Trindade)
Poeta Popular, nascido no Bairro de São José, em Recife, no dia 24 de Julho de 1908. Em 1934, realizou o I e II Congressos Afro-Brasileiros no Recife e em Salvador.
Leia o poema "Tem gente com fome" e para saber mais de Solano, visite:
TEM GENTE COM FOME

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiiii

Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem,
Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dzier
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuuu
(Solano Trindade)
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CUMPLICIDADE

Agora e pela hora da minha agonia
louvo Trindade e Jorge de Lima
cantando,
catando as duras penas, só.

– De onde vem, Solano, esta agonia?
– Vem de longe, nega, muito longe!
De Afroamérica sonhada,
lá, donde crece la palma
plantada en versos de alma,
del hombre José Martí.

– De onde vem, Solano, esta agonia?
– De muito longe, nega.
Do comecinho das coisas;
de muito longe, minha nega, muito longe...

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Conhecendo o que é Direito

Chamo a atenção de vocês
Para um assunto abordar
Os nossos direitos humanos
Em versos vou cordelar.

Diz o artigo primeiro
Que somos livres e iguais
Vivendo fraternalmente
Em busca de ideais.

O artigo segundo
Condena a discriminação
Seja na cor, sexo, condição social
Não deve haver distinção.

Do supremo Direito à vida
O terceiro artigo vem tratar
É o nosso bem mais valioso
Não se pode ignorar.

Já o artigo quarto
Proíbe a escravidão
Em toda e qualquer instância
Não se admite exploração.

O artigo quinto coíbe
Tratamentos desumanos
O respeito é um direito
De todo e qualquer ser humano.

Mas como são trinta artigos
E alguns até se pareça
Vou tentar sintetiza-los
Pra que ninguém os esqueça.

Todos eles são importantes
E conhece-los precisamos
Pois direitos só se conquistam
Se por eles nós lutamos.

E numa sociedade injusta
Onde o mínimo nos é negado
Não podemos perder a esperança
Nem abrir mão desse legado

Nesse mundo tão atroz
Ser diferente é defeito
Basta estar fora dos padrões
Para não ser bem aceito

Não podemos esquecer
Do direito à sobrevivência
Se não cuidarmos do planeta
Está condenada nossa existência.

São direitos essenciais
Para com dignidade viver
Saúde, moradia e educação
O mínimo que se pode ter.

Mas infelizmente tudo isso
Ainda não saiu o papel
E a falta de compromisso
Torna tudo mais cruel.

Moradia na verdade
Nem dá para discutir
São tanto os miseráveis
Sem um lugar pra dormir.

E educação então?
Que é pra ser de qualidade
E preparar o cidadão
Pra interagir na sociedade

Acabou virando comércio
Onde mais vale a quantidade
E com isso perpetuando
A tal da desigualdade.

Rejane Guimarães.

Poema produzido na 1ª etapa (22 a 26/01/07) do Projeto de Capacitação em Literatura e Direitos Humanos - Encontro de Multiplicadores; e revisado em 29/01/07 pela Profª Graça Graúna e pela monitora Karina Calado.

À Profª Graça

A seguir, depoimento de uma professora-multiplicadora, em visita ao blog:

"Profª Graça, Estive passeando pelo ambiente do blog... gostei da idéia. Estou no grupo do Projeto Literatua e Direitos Humanos. Sentimos a sua falta, mas o trabalho com a profª Perpétua está muito bom. Estimo suas melhoras e que Deus lhe abençoe em todos os seus projetos."
Luiza Carvalho

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Paródia

Viver

Viver e ter o direito de ser feliz
Estudar, estudar, estudar
Pra aprender a ser mais feliz

Eu sei que o Estado às vezes tem negado a alguns,
Mas isso não impede que reivindique:

Quero estudo, quero estudo pra toda gente

E a vida? Esse é o direito por Lei
Liberdade e segurança essas já não sei
Nem os ricos tem a vida assegurada.
Os restantes, coitados, são todos ameaçados
E nem garantia da Lei.

É preciso que se faça algo depressa.
A Escola, com certeza, minha gente
É saída pro rico e pra gente

O Estado, tem negado no seu papel
O conhecimento da Lei e jogado tudo ao léu

Por isso, é preciso que se faça
Da Carta Magna ensino pra toda massa.

Alvacy Cordeiro - Saloá
Jussara Santos - Garanhuns
João de Moura - Garanhuns

Produção de Professores multiplicadores - 1ª etapa Projeto Literatura e Direitos Humanos

terça-feira, janeiro 23, 2007

À Profª Graça


Está tudo muito lindo. O primeiro e o segundo dia do encontro de capacitadores-multiplicadores foram muitos bons. Conduzidos pela Profª Perpétua - que é ótima - percebi que os vinte capacitadores estão aproveitando bastante. Tenho uma expectativa muito positiva quanto aos resultados do projeto. Vi bastantes sugestões neste segundo dia, quando estavam sendo discutidas as dinâmicas e as músicas a serem trabalhadas na segunda etapa. O nível de interação e de discussão é riquíssimo.
Profª Perpétua está lhe dizendo que ontem não escreve a senhora porque saiu daqui muito tarde e está sem internet em casa. Os professores já organizaram as músicas para os cds e os textos a serem trabalhados no primeiro dia próxima etapa. De manhã o pessoal acessou a página do projeto, leu os textos e discutiu, viu a abertura da página e achou muito bonita. Passou a manhã discutindo na sala de informática. E a tarde foi o planejamento das atividades do próximo encontro. Nao foi feito o empenho ainda e nem compras, pois estava aqui na faculdade, mas a partir de amanhã recebe os professores e vai resolver essas coisas.
Breve escreverei à senhora novamente com mais notícias.
Um forte abraço de todos nós da monitoria: KArina, Luciane, Naydilla e Paulo; e da Profª Perpétua.

Nossos desejos de melhoras!

Paz e bem.

LITANIA DOS POBRES

LITANIA DOS POBRES

Os miseráveis, os rotos
São as flores dos esgotos.

São espetros implacáveis
Os rotos, os miseráveis

São prantos negros de furnas
Caladas,mudas,soturnas.
“...”
As sombras das sombras mortas,
Cegos,a tatear nas portas.

Procurando o céu, aflitos.
E varando o céu de gritos,

Faróis à noite apagados
Por ventos desesperados.

Inúteis,cansados braços
Pedindo amor aos espaços

Mãos inquietas estendidas,
Ao vão deserto das vidas.

Figuras que o santo ofício
Condena a feroz suplício.

“...”
Ó pobres!Soluços feitos
Dos pecados Imperfeitos!

Vai enchendo o estranho mundo
Com o seu soluçar profundo.

“...”
Que através das rotas vestes
Trazeis delícias celestes.

Que as vossas bocas de um vinho
Prelibam lodo o carinho...

Que os vossos olhos sombrios
Trazem raros amavios.

Que as vossas almas trevosas
Vêm cheias de odor das rosas.

“...”
Que já livres de martírios
Vêm festonadas de lírios.

Vêm nimbadas de magias,
De morna melancolia,...

Cruz e Souza.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Nosso Cantinho de Recados

A mulher invisível


foto: Josivan Rodrigues
Há mais de década faço como rotina de certos fins de tarde a certos fins de noite, visitas ao bar de um amigo, localizado na Praça Maciel Pinheiro, no bairro da Boa Vista. Centro do Recife. Consta, vez ou outra que eu seja visto de passagem por lá. E tão certo quanto a ida é o caminho que faço de volta pela Avenida Conde da Boa Vista, quase sempre madrugando pela vereda em penumbra, repetindo palavras; assobios na cabeça.

Durante todos estes anos tem estado presente, assinando a paisagem na margem esquerda do caminho, uma mulher negra, como se diz. O tempo sentada sobre caixas de papelão abertas, ladeada por sacolas plásticas na calçada da antiga escola dos maristas. Numa noite recente passei mais próximo a ela. Ouvi bodejar frases soltas, palavras fortes, arrumando seus mantimentos a fim de se deslocar para outro lugar perto dali.

Parei um pouco e conversamos por breves instantes. Numa modorra, sem que interrompesse os seus afazeres, ela me atendeu. Disse chamar-se Janaína. Segundo afirmou: a rainha do mar. Junta dinheiro desde 1986 para voltar a Salvador, sua cidade natal. Com um histórico de violência por parte dos homens que passaram pela sua vida, vive sozinha. Ali é a sua casa em Recife. Já é do Recife. Cidade do signo de peixes. Relatou que durante o dia é tudo calmo, não é incomodada. Ela não enxerga ninguém e ninguém a enxerga. Mas quando é noite pode correr o risco de chegar alguém e acordá-la. E ela não gosta que a acordem.

Demorou pouco, em monossílabos finais se dispersou encerrando nosso colóquio. Atravessou a avenida serena, concentrada, olhou para os lados, envolta em molambos. Fiquei parado por alguns segundos, antes de sair assobiando baixo uma toada de Angola que conheço, pensando um pouco quem sabe sobre quantas abolições seriam necessárias a um país como o Brasil.

Saudei em mente o meu fascínio pelas maiorias; a afeição que desde cedo nutro pelos desconhecidos, pelos anônimos não notados. Os rejeitados. Marcados pela tinta violeta da indiferença daqueles que passam apressados, quase ofegantes pela vida, tentando cumprir as metas e demandas seríssimas dos próprios umbigos.

Prossegui quase peripatético comigo mesmo. Passeei um pouco mais, recitando frases, rumo a um ponto de ônibus na Praça do Derby, deixando o bairro da Boa Vista para trás a dormir, se cobrindo pela distância nas minhas costas - junto com Janaína, a rainha das ruas, inquilina das calçadas públicas. A mulher invisível.
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Walter Ramos de Arruda (1976) nasceu em Recife, é graduado em Letras. Mestrado em antropologia. Vive escrevendo.

Crônica enviada pela professora Graça Graúna para leitura (e que nos preparemos para comentá-la, se possível, no dia 23/01, na Capacitação).
Bjs para todos.

Sugestões de Leitura

Caros amigos,
segue algumas sugestões de leitura (referências) na área de Literatura e Direitos Humanos:

BERND, Zilá. Negritude e Literatura na América Latina. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987.
BOSI, Alfredo. Literatura e resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades, 2004.
DALLARI, Dalmo de Abreu. Direitos humanos e cidadania. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2004.
DOSTOIEVSKI, FIODOR. Crime e Castigo. São Paulo: Editora 34, 2001.
ELIOT, T. S. Notas para uma definição de cultura. São Paulo: Perspectiva, 1988.
HUGO, Victor. Os Miseráveis. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de Despejo – Diário de uma favelada. 8. ed. São Paulo: Ática, 2005.
LEVINE, Lawrence. Highbrow/Lowbrow: The Emergence of Cultural Hierarchy in America. Cambridge: Harvard University Press, 1990.
LLOSA, Mario Vargas. Filosofia doméstica para tornar a vida mais compreensível e tolerável. O Estado de São Paulo, 11.06.2006, p. D8.
LUCAS, Fábio. O caráter social da ficção do Brasil. São Paulo: Ática, 1985.
MELVILLE, Herman. Billy Budd. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.
SANTOS, Joel Rufino dos. O que é racismo. São Paulo: Brasiliense, 1984.
WERNECK, Claudia. Meu amigo Down. 6 ed. Rio de Janeiro: WVA, 2004.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Ao Grupo DH

Amigos,
Estou a espera de retorno.
Preciso que comentem e que interajam no blog. Preciso de idéias.
Gostaria que comentássemos o material, sei lá, sugeríssemos alguma coisa coisa. Que me deixassem um abraço. Desejo a todos um 2007 repleto de alegrias, saúde, paz, amor e muitas felicidades.
Ah, o livro da professora Graça é ótimo, né?! Eu adorei.
Um forte abraço para todos.
Karina Calado

Operários - Tarcila do Amaral

domingo, janeiro 07, 2007

Abaporu - Tarcila do Amaral


O Abaporu - tela pintada por Tarsila do Amaral em 1928 - destaca-se no panorama cultural do Brasil pela importância determinante que exerceu em nosso movimento modernista. Tarsila ofereceu a pintura como presente de aniversário ao marido, o poeta Oswald de Andrade. Abaporu - título em tupi-guarani dado por Oswald e que significa "homem que come" - serviu como inspiração e como síntese do Manifesto Antropófago criado pelo próprio Oswald de Andrade e cuja essência propunha a devoração da cultura e das técnicas importadas e sua reelaboração com autonomia, transformando o produto importado em exportável. O nome do manifesto refere-se a uma crença índigena que dizia que os índios antropófagos comiam o inimigo, supondo que assim, assimiliriam suas qualidades.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Poemas - Jorge Luis Borges

As Coisas (Jorge Luis Borges)

A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a ofendida
Violeta, monumento de uma tarde,
De certo inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora.Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas e taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão muito além de nosso olvido:
E nunca saberão que havemos ido.

Poemas - Manuel Bandeira

Irene no céu

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
— Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

(Manuel Bandeira)

Poemas - Manuel Bandeira

O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.


(Manuel Bandeira)

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Nossos poemas - Karina Calado

Iracema

Iracema não é
Agora mais virgem
Iracema criança ainda era
Quando vestiu-se
Com o Short, a mini-blusa
E foi pra rua
Fez o que o branco queria

Seu corpo adolescente
Como o sol, ardente
Seus lábios encarnados como o rubi
Seus seios cheios como a lua cheia
Que ilumina
A esquina
Onde os carros passam, param

Iracema não é
Mais menina
Já sabe seu preço
Por algumas moedas diz:
- Mim faz tudo
E sem camisinha

Iracema é filha do sol
É a História
Que o Brasil precisa contar.

Karina Calado


amigos, enviem-me textos para que eu publicar.

quarta-feira, dezembro 20, 2006